Cada vez que a Donzela de Ferro lança um novo álbum, fãs e mídia especializada em todo mundo causam um verdadeiro alvoroço. Durante as semanas que antecedem o álbum a situação é sempre a mesma: muita ansiedade, entrevistas dos integrantes mencionando o quão grandioso, progressivo e diferente esta o álbum, procura incessante por previas ou “vazamentos” do álbum na web, lançamento de um single e por fim resenhas de jornalistas privilegiados que ouviram o álbum antecipadamente.
Com The Final Frontier essa rotina se repetiu para mim, ainda com maior intensidade em relação aos álbuns anteriores, em grande parte devido ao single EL Dorado.
Quando baixei o novo single direto do site oficial da banda, tudo o que não queria era ouvir uma intro lenta com dedilhados. Apesar de grandes musicas terem sido feitas assim, inclusive nos últimos anos, se tornou algo um tanto quanto comum para o Maiden. Mas El Dorado começa de forma inusitada e logo de cara temos o baixo cavalgado de Harris dando inicio a uma canção intrincada, pesada e com um refrão sensacional. De cara me deixou babando de vontade de conhecer o novo álbum.
Algumas semanas depois, a banda libera o vídeo feito para a faixa titulo “The Final Frontier”. Mais uma surpresa, pois a faixa de abertura do disco tem um ar totalmente hard rock, com bons solos e um refrão extremamente grudento. Musica muito competente... e a ansiedade crescia. A partir deste momento já acompanhava tudo que dizia respeito ao novo álbum, fossem resenhas de jornalistas que já começavam a aparecer, fóruns de discussões, matérias em revistas, etc.
Não demorou muito para que um site logo disponibiliza-se um release de 30 segundos de cada faixa do álbum. Isso acabou por esfriar um pouco minha ansiedade pelo álbum, pois os trechos disponibilizados em sua maioria eram justamente de partes lentas das musicas. Pela primeira vez veio a desconfiança para com o material. Felizmente, como descobri posteriormente com o álbum em mãos... infundada.
A apenas uma semana do lançamento heis que o álbum finalmente vaza na internet. Movido por uma ansiedade quase angustiante, resolvi baixar o álbum através de um blog, mas decidi não ouvi-lo e esperar por mais uma semana pela chegada do meu original, que já havia sido adquirido via pré-venda. Sábia escolha, apesar de ter sido uma decisão difícil.
Quarta feira, 18 de Agosto de 2010. Dois dias após o lançamento mundial, chego em casa 22:00 extremamente cansado, mas sobre a mesa uma encomenda me aguardava. Corro para me trocar, deito na minha cama com o encarte em mãos, ligo o som e ponho os fones de ouvido... um ritual que eu não fazia a anos (a ultima vez foi realmente com Dance of Death). Mas um novo álbum do Maiden merece ser ouvido com toda a atenção. O momento tão aguardado havia chegado, agora vamos relata-lo faixa a faixa:
Satellite 15... The Final Frontier
Como já comentado, já conhecia a musica, ou parte dela. A primeira faixa do álbum pode ser dividida em duas partes. A introdução Satellite 15 é de longe a coisa mais estranha feito pelo Maiden. Uma bateria Tribal (lembra muito o Angra, como muito já foi dito, mas também lembra o Sepultura em seus tempos de Roots) com guitarras distorcidas e um vocal fantasmagórico de Bruce dão um clima interessante para a pancada Hard Rock que vem a seguir,
El Dorado
Já comentei sobre esta faixa acima. Muito li e ouvi que se trata da faixa mais fraca do disco. Não concordo. Na minha opinião, se El Dorado estivesse em Powerslave ou Piece of Mind, ainda sim estaria entre as mais fortes do álbum. Falta-lhe talvez um solo mais agressivo, mas o refrão grandioso, contrastando com as linhas vocais irônicas do resto da musica lhe conferem o status de uma das melhores musicas do Maiden nos anos recentes.
Mother of Mercy
Essa musica tem a cara do Iron Maiden pós volta de Bruce e Adrian. Sua sonoridade nos remete logo de cara ao Brave New Wolrd, embora no decorrer da mesma e também devido a sua letra, vemos semelhanças com o Matter of Life And Death. A qualidade da mesma porém está acima da apresentada no AMOLAD, pois não dá voltas desnecessárias e, para os padrões do Maiden atual, é mais direta. Possui um clima denso e um refrão excelente. Uma das melhores do Álbum (embora seja realmente difícil escolher).
Coming Home
Bruce Dikinson. Coming Home é sem sombra de duvida uma música de Bruce Dickinson e poderia estar em seus trabalhos solo. De cara ela me remete ao Tyrannys of Soul, mas tem muito do Chemiccal Weddings também. Trata-se de uma balada, mas uma balada do Iron Maiden, portanto temos também peso, melodia, bons solos e um refrão fantástico. A letra, que também tem a cara de Bruce Dickinson, fala de retornar para casa após um vôo. Uma grande musica, que com outros poderia ser clichê ou piegas, mas que com o Iron Maiden foi moldada para ser uma pérola das mais preciosas.
The Alchemist
A musica mais rápida do Álbum, é apontada como sendo a mais Maiden. Possui uma melodia interessante e um refrão marcante. Durante minha primeira audição a achei uma musica um tanto quanto comum, ainda mais vinda depois de uma seqüência matadora como a formada por Satellite... The Final Frontier,
Isle of Avalon
Infelizmente esta musica não correspondeu as expectativas (pelo menos a minha), mas há uma boa razão para isso. Praticamente em todas as resenhas feitas, apontavam Isle of Avalon como um dos momentos mais brilhantes e épicos do álbum, contando com um inspirado solo de Adrian Smith. Realmente esta música é tudo isso, mas eu, particularmente esperava algo diferente. Talvez alguma coisa mais parecida com Alexander the Great ou mesmo To Tame A Land. Talvez a culpa da decepção seja mais minha do que da banda hehe.
A faixa tem um inicio lento, muito comum na fase atual da banda. É a faixa que mais faz uso desse recurso e embora para alguns, isso possa ser maçante, nesta música especificamente isto cai bem e cria um clima totalmente coerente com o misticismo em torno de Avalon. Durante o refrão o ritmo acelera e temos a melhor parte da musica, seguida de um solo realmente inspirado de Adrian, mas que surpreendentemente parece saído de um álbum do Rush. A mistura de influencias celtas, com o heavy metal do maiden e a influencia progressiva fazem de Isle of Avalon uma musica única no repertório do Maiden (não importa o quanto alguns torçam o nariz para a intro dedilhada lenta). É sim uma boa música, mas que talvez requeira algumas audições para melhor capturar varias nuances existentes e para compreende-las melhor.
Starblind
Embora haja varias candidatas ao posto de melhor música do álbum, Starblind é sem duvida uma das mais fortes. A musica reúne caracteriticas típicas do Maiden anos 80, com momentos que lembram muito Seventh Son of a Seventh Son, e elementos progressivos típicos dos anos recentes da banda. Acrescentado a isso temos elementos psicodéclicos que dão a musica um ar único.
Com uma letra inspirada, bons solos, refrão marcante e ótimas linhas vocais é uma das músicas que dificicilmente não agrada os fãs, sejam eles da antiga ou da nova geração. Iron Maiden em sua melhor forma.
The Talisman
The Talisman tem tudo para ser uma música nota 10, infelizmente ela peca em um único detalhe: uma introdução lenta como tantas outras. Não que a introdução seja ruim, ou mesmo desnecessária, pois acrescenta uma atmosfera interessante a música e Bruce demonstra toda sua capacidade de interpretação como vocalista (Não é difícil de imaginar o vocal da Donzela de ferro junto a uma fogueira de violão na mão narrando uma historio, ao se ouvir esse trecho da musica). O problema é que esta introdução é semelhante até demais a introdução de The Legacy,musica que fecha em alto nível o album Matter of Life And Death. Quando ouvi The Talisman pela primeira vez fui assaltado por uma verdadeira sensação de De Javu. Não é ruim, mas poderia ser diferente.
Passada a introdução a musica explode em uma sequencia rápida e com melodia excepcional. Podemos facilmente imaginar a cena de desbravadores vikings navegando através de tormentas em busca de novas aventuras. Se trata de uma musica mais alto astral, como por exemplo Out of The Silent Planet, mas é muito superior a esta. A melodia é realmente cativante a o refrão grandioso. Só mesmo o Maiden para criar épicos como este.
The Man Who Would Be King
Chegamos a sempre presente composição de Dave Murray. Já foi dito por integrantes da banda que o processo de composição de Dave é semelhante ao parto de um elefante. Desta vez parece ser um elefante realmente difícil de digerir. Particularmente a considero uma boa faixa, a principio a considerei mais abaixo do restante do álbum. Foram necessárias algumas audições para que eu começasse a aprecia-la. A introdução lenta aqui é totalmente desnecessária e a musica ganharia muito se começasse diretamente com seus bons riffs.
Bruce canta em tons baixos nesta musica, inclusive no refrão, que é competente. Acredito que este seja o adjetivo que melhor define esta música: competente. Tem momentos interessantes, que se tornam melhores a cada audição.
When The Wild Winds Blows
Inusitada. When The Wild Winds Blows é uma musica completamente inusitada no que se refere a Iron Maiden. A nível pessoal eu a classifico, porém, como Obra Prima.
Inspirada em uma animação da década de 80, que por sua vez é baseada em uma graphic novel, a música narra a história de um idoso que juntamente com sua esposa se prepara para um iminente ataque nuclear a Inglaterra por parte dos soviéticos, durante o período de guerra fria.
Steve Harris assina sozinho esta música e embora a temática tenha a sua cara, a música em si é bem diferente de tudo o que o Maiden já fez. Alguns, os mais radicais talvez, a odeiem. Eu a considero entre as melhores coisas já feitas pela banda. Um resenhista a descreveu como “sendo algo parecido ao que os beatles talvez fizessem se utilizassem 3 guitarras e tocassem mais pesado”. É uma comparação interessante, mas dificil de se ter certeza.
A musica começa com o som de vento soprando e logo temos uma introdução calma, acompanhada de um inspirado Bruce Dikinson e sua excepcional capacidade de interpretação. Definitivamente Bruce sabe fazer exatamente o que a canção pede. Algumas estrofes para frente e o ritmo acelera e logo a musica se desenrola com sensacionais variações e ótimos solos.
Certamente este é um som pronto a criar polemica (ainda mais) em meio aos fãs, pois muitos a considerarão ótima enquanto outros torcerão o nariz para a mesma ou ainda estarão prontos a afirmar que não possui nada de excepcional.
Conclusões Finais
O Maiden já conta mais de 30 anos de carreira e em todo esse tempo mudou muito. Em seus primeiros anos com Paul Di Anno, era uma banda direta e crua com uma veia Punk. Com a entrada de Bruce a banda perdeu um pouco da crueza mas continuou com trabalhos pesados e fenomenais. Com Somewhere in Time e Seventh Son of a Seventh Son o grupo experimentou um metal mais elaborado e perdia um pouco do peso e espontaniedade inicial. Veio o No Prayer for The Dying e Fear of the Dark e com isso a fase Hard Rock da banda. Blaze Bayle entrou no lugar de Bruce Dickinson e a donzela passou a ter um som mais sombrio. Com a volta de Bruce veio o inicio da fase mais progressiva, com arranjos mais trabalhados.
Nenhuma banda de metal no mundo possui uma horda de fãs tão vasta quanto o maiden e esta legião foi crescendo a cada álbum lançada pelo conjunto. Ou seja, existem fãs que conheceram a banda ao som de sua fase tradicional, ou sua fase hard rock, ou na era Blaze... é praticamente impossível agradar a todos e historicamente, cada album lançado pelos britânicos vem carregado de polemicas e criticas negativas (a exceção são os dois primeiros e talvez o Piece Of Mind - mesmo Powerslave foi criticado-). Passado um tempo porém, estes álbuns se tornam clássicos e admirados por muitos. Com o Maiden isto é uma tendência e provavelmente acontecerá novamente, agora com TFF.
Aqueles que esperam um som direto, como em TNOTB ou POM irão se decepcionar. Não é um álbum fácil de se assimilar, mas certamente desce mais fácil do que o antecessor AMOLAD. Aqueles menos radicais certamente irão apreciar o grande trabalho de Harris e Cia neste álbum, mesmo que talvez leve algum tempo (como é comum na historia da banda). Minha opinião pessoal é de que este álbum está próximo ao Somewhere in Time e Seventh Son of A Seventh Son em sonoridade (e não muito longe em qualidade). É superior ao DOD e ao AMOLAD e apto a bater de frente com o Brave New World (também um álbum magnífico), capaz inclusive de supera-lo e se tornar o melhor lançamento da Donzela desde Seventh Son of a Seventh Son (e olha que este que vos escreve é um fã de carteirinha do NPFTD).
O destaque individual da banda neste álbum é certamente Nicko MacBrain. O Batera demonstra muita técnica e se sente muito a vontade com a fase progressiva da banda. Durante todo o álbum podemos perceber seu grande trabalho, com ótimas viradas e batidas certeiras. Eu também destacaria Adrian Smith, que alem de participar de boa parte das composições, nos brinda com ótimos solos.
O destaque negativo fica por conta do “Caveman” Kevin Shirley e sua produção. Jogar toda a culpa em cima do produtor, em se tratando do Maiden é arriscado, pois é dificl saber até onde Steve “Corleone” Harris se intromete nos assuntos do mesmo. Falta ao álbum mais peso, especialmente para uma banda com 3 guitarristas. Com um bom sistema de som, é possível fazer uma regulagem de forma que se de mais destaque a esses instrumentos e com isso temos uma real noção de quanto este álbum poderia ganhar com isso.
Gostei do álbum de primeira (o que não é comum no meu caso) e aponto como os maiores destaques: The Final Frontier, Coming Home, Starblind e When The Wild Winds Blows. Essas são seguidas de perto por The Talisman, Mother of Mercy e El Dorado. Isle of Avalon, The Alchemist e The man who would be king também são grandes faixas. Não há faixas ruins no álbum. Pode-se achar faixas mais fracas em relação a outras, mas de forma alguma há
Minha nota seria 10, pois a banda se mostra inspiradíssima e merece tal nota, mas pela produção que poderia ser melhor, The Final Frontier ganha um 9,5.





